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Importância da contracepção de emergência para mulheres que vivem ou convivem com HIV

Por Regina Figueiredo*

Segundo o Ministério da Saúde, de 1980 a junho 2017 foram detectados 306.444 casos de HIV em mulheres, 62.198 apenas nos últimos 10 anos, sendo 96,8% por exposição heterossexual. Só em 2016 foram 11,6 casos para cada 100 mil brasileiros, atingindo 11.990 mulheres.

Tal diagnóstico ocorre para 2/3 delas durante a gestação, ou seja, em plena idade reprodutiva. E como demonstraram Villela e Barbosa ao entrevistar 85 mulheres vivendo com HIV/aids de Belém, São Paulo, Ribeirão Preto, Goiânia, Recife e Pelotas, provoca extrema mudança em suas vidas afetivas e sexuais.

Autoras como Villela e Barbosa vêm apontando que, após o diagnóstico e frente à continuidade da vida sexual, muitas portadoras de HIV realizam uma mudança completa nas suas estratégias de prevenção à gravidez e no uso dos métodos contraceptivos, dando destaque ao uso do preservativo masculino.

Vasconcelos e Galvão, pesquisando no Ceará, mostraram que portadoras de HIV que mantinham prática sexual, metade usava apenas o preservativo constantemente como contraceptivo; ¼ não se preocupavam com a prevenção da gravidez porque estavam esterilizadas; e 1/4 vivenciavam constantemente situações de risco de engravidar porque usavam o preservativo de forma irregular, ou alternando seu uso com o coito interrompido, a tabelinha ou com nenhum método. As autoras dizem que as mulheres justificavam esses riscos por elas mesmo ou seus parceiros não querer a relação usando preservativo.

Em Santo André – SP, onde tive oportunidade de estudar todas as 183 mulheres localizadas com HIV no município, na época, mais da metade (83,8%) passaram a usar preservativo, algumas (21%) associando-o com o uso de métodos de grande eficácia na prevenção da gravidez, como a pílula anticoncepcional, a injeção e o DIU. Outras 62,8% usavam o preservativo sozinho, situação em que metade (38%) tinham vivenciado situações de rompimento desses ‒ ou sejam situações de risco para a gravidez ‒; além disso mais 9,8% realizavam uso do preservativo em alternância com a prática do coito interrompido, da tabelinha ou de duchas vaginais.

Não à toa, frente a todas essas situações de contracepção insegura, quase ¼ das mulheres com HIV de Santo André relataram ter tido gestações não-planejadas (totalizando 40% de todas as gestações registradas), 1/5 desses caso (22%) resultando em abortos provocados por elas ‒ mulheres que não desejam a gravidez de nenhuma forma.

Isso demonstra que mulheres com HIV vem se expondo a riscos de gravidez não planejada tão ou mais altos que as mulheres brasileiras em geral, uma vez que muitas abandonam o uso de métodos hormonais de alta eficácia, substituindo-os por preservativos. Muitas vezes isso é uma forma de não sobrepor métodos (pois irão usar a camisinha de qualquer jeito), ou mesmo para reduzir o consumo de remédios (uma vez que já tomam os antirretrovirais diariamente).

Por isso o conhecimento e o acesso da contracepção de emergência é fundamental frente ao risco comprovado de gravidez que mulheres que vivem e convivem com HIV enfrentam em seu cotidiano, seja devido aos eventuais rompimentos de preservativos ou por estarem recorrendo a métodos inseguros, quando fazem coito interrompido, tabelinhas, duchas vaginais ou não usam nada. Essas situações de risco que deveriam ser evitadas pelas mulheres com o uso regular e constante da camisinha, revelam situações em que há cansaço, preguiça ou mesmo não disponibilidade dela no momento do ato sexual.

A contracepção de emergência cobre justamente essas situações de risco, é um plano B para a prevenção da gravidez quando há risco de gravidez. E serviços de DST/HIV/aids deveriam difundir a sua existência, eficácia e fornecê-los a seu público.

Embora seja adquirida pelo Ministério da Saúde para dispensa nas unidades básicas de saúde (UBS) e no serviços de emergência, como os pronto socorros, sua oferta nesses espaços nem sempre é feita às mulheres em geral, incluindo as que vivem e convivem com o HIV, dado que a quantidade não é suficiente para a demanda e acaba sendo mais dirigida às mulheres vítimas de violência sexual e estupro.

Por isso, mulheres que vivem e convivem com o HIV/aids precisam ter a informação reforçada: podem e devem recorrer à contracepção de emergência para evitar a gravidez nas situações em que:

– houver rompimento de preservativos
– não foi feito uso de preservativo ou de método hormonal
– não usou preservativo e esqueceu-se de tomar a pílula anticoncepcional por mais de 2 dias
– tiver tido relações sexuais fazendo uso de coito interrompido ou tabelinha – que são métodos de alto risco para a gravidez

Esse uso deve ser feito, de preferência, nas primeiras 24 horas após a relação sexual de risco como recomenda as normas do Ministério da Saúde de 2011. Nesse primeiro dia, sua eficácia é máxima, protegendo a gravidez em 95%; no segundo dia (até 48hs), a eficácia é de 85%, no terceiro dia (72 hs) é de 58% e mesmo no 5º dia após o sexo (120 hs) protege em 18% ‒ por isso deve ser utilizada, já que a tentativa de prevenção é melhor do que a ocorrência de uma gravidez não-planejada.

A Organização Mundial da Saúde (WHO) recomenda que não haja qualquer restrição para métodos contraceptivos hormonais para mulheres com HIV. Nesse sentido, as mulheres que soropositivas que desejem utilizar pílulas ou injeções para estarem protegidas diariamente podem e devem fazê-lo, confirmando as suas condições clínicas para uso com seus médicos.

E as mulheres que vivem e convivem com HIV que não desejem utilizarem pílulas ou injeções hormonais ou DIU precisam, no mínimo, ter informação e acesso à contracepção de emergência, que funciona frente a essas situações de risco que vivem, de forma que não tenham que não fiquem grávidas sem planejamento e nem se submetam a gestações indesejadas, ou recorrer a abortos.

Esse uso pontual da contracepção de emergência equivale à quantidade de hormônios de poucos comprimidos das pílulas anticoncepcionais comuns de médica dosagem. Ou seja, representa menos do que a ingestão de 1 cartela de pílulas comuns. Deve ser prioritariamente fornecido pelos serviços de saúde, que podem também prescrever a compra em drogarias quando o método está em falta (nome comerciais Diad, Minipil2-Post, Nogravide, Pilem, Poslov, Postinor, Pozato, Previde, Prevyol,…) e, em última alternativa, administrá-lo com 4 pílulas comuns de baixa dosagem (Nordete, Microvlar e Levordiol), ou 2 pílulas comuns de média dosagem (Neovlar, Evanor, Normamor), conforme modelo Yuzpe, conforme dosagens citadas pelo Ministério da Saúde.

Recomenda-se também que seja explicitada que esse uso só protege a relações anteriores e não deve ser feito para relação futuras, e nem ser feito o uso programado e constante da contracepção de emergência, pois sua falha é superior ao uso de contraceptivos comuns de uso constante, ela também provoca a maior hormonização da mulher e pode apresentar efeitos colaterais. Assim, a escolha e o uso efetivo do preservativo ou de outro contraceptivo de uso diário ou constante para a prevenção da gravidez antes da relação sexual é fundamental.

Todas as mulheres com HIV ou que convivem com parceiros que têm este vírus, assim como todas as mulheres em geral, tem direito aos Direitos Sexuais e Reprodutivos, onde o planejamento reprodutivo e a contracepção são essenciais para o exercício da cidadania, já que libera o exercício da sexualidade da ocorrência da gravidez e do ter filhos, permitindo à mulher melhor gerenciar a sua vida.

* Regina Figueiredo é pesquisadora cientifica do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

Fonte: Agência Aids